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Agostinho André Mendes de Carvalho (Uanhenga Xitu)

Mendes de Carvalho
Data da primeira prisão

Agostinho André Mendes de Carvalho (Uanhenga Xitu), filho de André Gaspar Mendes de Carvalho e de Luísa Miguel Fernandes, nasceu em Calomboloca, Catete, Icolo e Bengo, Angola, a 29 de agosto de 1924. Ali estudou até à 3ª classe. Seguiu depois para Luanda, onde fez o exame numa missão protestante. Acabada a 4ª classe, continuou a estudar em casa, tendo como explicador Mário Pinto de Andrade. 
Tirou, entretanto, o curso de Enfermagem, o que lhe permitiu obter o seu primeiro trabalho como enfermeiro em Dinge, Cabinda. Passou depois por postos no Dondo, Cuanza Norte, Bié, Huíla, Benguela, Huambo e Bailundo, conhecendo assim grande parte do território de Angola. Somando-se ao convívio com Mário Pinto de Andrade e Viriato da Cruz, esse contacto com a realidade vivida pelo povo angolano levou-o à atividade política. Criou, com outros enfermeiros, o clube recreativo Espalha Brasas, que funcionava como centro de recrutamento e doutrinação. Já casado e pai de 11 filhos, em Dezembro de 1958 deslocou-se a Léopoldville (hoje Kinshasa), em busca de uma ligação que permitisse o envio regular de informação para o exterior. 
Foi preso após o regresso a Luanda, no dia 29 de Março de 1959, em que foram também presos Fernando Pascoal da Costa, António Pedro Benge e Sebastião Gaspar Domingos. Como eles, foi levado para um calabouço da PIDE no Bairro de São Paulo. A diferença foi que, como contou à historiadora Dalila Cabrita Mateus, tendo sabido das prisões em curso, acabaria por se entregar antes de ser encontrado:
“Vou para o hospital, e lá dizem-me que estou a ser procurado, que até já tinham ido a minha casa, que a casa estava toda revolvida, que as estações estavam todas vigiadas, para não sai dali. Avisei os outros colegas que também pertenciam à nossa associação. Pensei: ‘Como tantos já foram presos, em vez de estar a atrapalhar tudo, vou mandar chamar os gajos. Não tenho medo, chegou a hora, pronto! É desta vez que a gente vai falar a verdade.’ Telefonei para os polícias. (…) “Ouvi dizer que estão à procura de Fulano de tal.” “Sim senhor.” Veio o agente: “É o Senhor Mendes de Carvalho?” “Ouvi dizer que os senhores foram à minha casa e a revolveram toda. E como não tenho medo, aqui estou.”
O processo, envolvendo 20 arguidos, foi enviado ao Tribunal da Comarca de Luanda a 24 de setembro desse ano, e distribuído à 2ª Vara, em que era juiz Jorge Henrique Pinto Furtado. Os outros dois processos do que é habitualmente referido como “Processo dos 50” foram distribuídos à 1ª e 3ª Vara do mesmo Tribunal. E, em Outubro, quase todos os presos foram transferidos para a Casa de Reclusão Militar, na Fortaleza do Penedo. 
Em janeiro de 1960, no entanto, o Ministério Público alegou incompetência do Tribunal Comum, tendo o Juiz ordenado a remessa do processo ao Tribunal Militar Territorial. Os recursos da defesa não logram provimento no Tribunal da Relação de Luanda, nem no Supremo Tribunal de Justiça, em Lisboa. 
Os presos sofreram já 20 meses de prisão preventiva quando o julgamento finalmente se inicia, a 5 de dezembro de 1960. Considerado como pertencendo ao grupo dirigente, Mendes de Carvalho é condenado, na sentença lida a 20 de dezembro, a 10 anos de prisão maior (sendo desses descontado metade do tempo de prisão já sofrido)., suspensão de direitos políticos por 15 anos e na medida de segurança de internamento em estabelecimento adequado por tempo indeterminado de seis meses a três anos.
Enviado para o Campo de Concentração do Tarrafal – entretanto rebatizado “Campo de Trabalho de Chão Bom” - em fevereiro de 1962, sai, oito anos depois, em 1970.