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António Guerra

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Data da primeira prisão

Nascido em 23 de junho de 1913 perto da Figueira da Foz, António Guerra veio em criança com a família viver para a Marinha Grande. Tirou o curso comercial e trabalhou muito jovem nos escritórios da fábrica Ricardo Gallo. Com apenas 16 anos adere ao Partido Comunista, então reorganizado na clandestinidade. Em 1931, quando se faziam sentir os efeitos da crise mundial e grande número de operários vidreiros desempregados trabalhavam na abertura de estradas, organiza uma luta por melhores salários que culmina em manifestação pela vila, ação insólita que alarma a burguesia local. Em fins desse ano, graças ao trabalho de António Guerra, José Gregório e outros, é criado o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria do Vidro, em desafio ao regime ditatorial.

Na agitação crescente que percorre o meio operário nos anos seguintes, Guerra destaca-se pela sua entrega total à atividade revolucionária. Surge assim naturalmente entre os dirigentes do levantamento de 18 de janeiro, quando os operários vidreiros julgam reunidas as condições para uma resposta insurreccional à escala nacional contra a ilegalização e roubo dos seus sindicatos, substituídos por Salazar por “Sindicatos Nacionais”, no modelo corporativo do fascismo italiano.

Constituíram o núcleo organizador da revolta, além de António Guerra, Manuel Esteves de Carvalho, José Gregório, Manuel Baridó e Adriano Neto Nobre. Guerra comandou uma brigada de 6 operários que tomou a estação dos correios da Marinha Grande. Segundo os autos da PIDE, “foi detentor de duas bombas de dinamite, uma das quais utilizou no ataque à estação telégrafo-postal”. Em seguida, foi ele quem obteve a rendição do posto da GNR, cercado pelos revolucionários. Seguiram-se momentos de euforia, com muitas dezenas de operários armados celebrando a vitória diante da Câmara Municipal onde foi hasteada a bandeira vermelha.

A revolta foi, contudo, rapidamente sufocada pelo exército. António Guerra andou, como muitos outros, fugido quatro dias pelos pinhais, acabando por se entregar à GNR em Leiria. Espancado, torturado, foi levado para Lisboa e julgado com dezenas de outros revolucionários no Tribunal Militar Especial em 19 de fevereiro. Condenado, na qualidade de “chefe da rebelião”, a 20 anos de degredo com prisão e “ficando à disposição do Governo”, foi transportado em setembro para a Fortaleza de S. João Batista, em Angra do Heroísmo.

Após cumprir aí dois anos de prisão, em condições péssimas, embarcou na primeira leva de deportados para o Tarrafal, em 29 de Outubro de 1936.

Contudo, ao fim de sete anos de paludismo, trabalho forçado na “brigada brava”, castigos na “frigideira” e alimentação miserável no campo da morte lenta, a sua saúde começou a soçobrar. Em janeiro de 1944 foi trazido para Lisboa, meio cego. Mas não foi libertado. Na linguagem jesuítica do regime, revelava-se “de difícil correcção”, seguindo-se o calvário de Caxias, Aljube, Peniche

Em começo de 1948 tenta uma fuga, mas falha. A PIDE não perdoa; por recomendação sua, António Guerra sofre nova deportação para o Tarrafal. O avante! de Junho desse ano denuncia esta medida inaudita, pede solidariedade e afirma que “o governo de Salazar tem por fim premeditado condená-lo à morte”. Não se engana. Poucos meses bastam para que as febres o levem. Após doença prolongada e já praticamente cego, sucumbiu de tuberculose e paludismo em 28 de dezembro de 1948. Tinha 35 anos de idade.

Biografia a partir de texto de Francisco Martins Rodrigues