banner

 

Arlindo Augusto Pires Vicente

005377
Data da primeira prisão

Prestigiado combatente contra a Ditadura, foi alvo da repressão fascista por diversas vezes. Advogado, intelectual e artista plástico, era uma personalidade multifacetada. 
Arlindo Augusto Pires Vicente nasceu em 5 de março de 1906, na freguesia de Troviscal, concelho de Oliveira do Bairro. Faz o ensino liceal em Aveiro e, com 12 anos, obtém a classificação de 20 valores em Desenho, denotando invulgar talento artístico. Em 1926, matricula-se em Medicina na Universidade de Coimbra, (que irá mais tarde trocar pelo Direito) e distingue-se como diretor artístico do quinzenário de caricatura “Pena, Lápis e Veneno”. Em 1927 participa com 16 obras no I Salão de Arte dos Estudantes da Universidade de Coimbra. 
Em 1930 trabalhou na organização do I Salão dos Artistas Independentes, em Lisboa, na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) e expõe 16 trabalhos. Participa com 12 trabalhos no II Salão de Independentes (1931), na Exposição dos Artistas Modernos Independentes (Casa Quintão, Chiado, Lisboa, 1936), e em quase todas as Exposições Gerais de Artes Plásticas (exceto 1954 e 1955), ou em Salões da SNBA, onde desempenha cargos diretivos. 
Os seus desenhos aparecem em prestigiosas publicações periódicas, como a Presença, o Diabo, a Seara Nova, e mais tarde a Vértice. Participa na Exposição dos artistas modernos independentes, na Casa Quintão, em Lisboa e, em 1940, na Exposição do Mundo Português. Em 1946, participa na Exposição Geral de Artes Plásticas, na SNBA.
Em 1932, depois de frequentar a Faculdade de Direito de Lisboa, regressa a Coimbra, onde se licencia e inicia em Anadia a carreira de advogado. Radica-se em Lisboa com a sua família, em 1936, prosseguindo aí a sua carreira de advogado. 
Em 1945 adere ao Movimento de Unidade Democrática (MUD), subscrevendo no ano seguinte uma representação ao Presidente da República, protestando contra as demissões dos Professores Mário Azevedo Gomes e Bento de Jesus Caraça.
Em 1947, na qualidade de advogado, participa na defesa dos membros da Comissão Central do MUD, constituídos arguidos e levados a tribunal, defendendo nos tribunais plenários numerosos outros antifascistas. Quando em 1950, expõe na Quinta Exposição de Artes Plásticas, realizada na SNBA, os seus quadros e os dos demais participantes são apreendidos por ordem do Ministro da Educação Pires de Lima, que considera subversiva a pintura exposta. Em 1952 é um dos signatários de uma representação dirigida ao Presidente da República, no sentido de Portugal abandonar a NATO e, em 1956, subscreve um abaixo-assinado com o título “Pela Paz entre as Nações”, que propõe ao Governo Português que efetue diligências para a conclusão de um pacto de paz entre as Grandes Potências. 
Destacou-se na defesa de vários antifascistas perante os Tribunais Plenários da ditadura. Como advogado de defesa de elementos dirigentes do MUD, abandona a sala do julgamento em sinal de protesto contra o cerceamento da defesa pelo juiz presidente do tribunal, no que é seguido pelos restantes advogados. O Tribunal faz participação à Ordem dos Advogados, mas o Conselho Disciplinar arquiva o processo. 
Em 1957 é proposto pela Oposição Democrática como candidato a deputado à Assembleia Nacional pelo círculo de Lisboa e, em 1958, fez parte da Comissão Cívica Eleitoral, de iniciativa da Oposição Democrática, que visava a atualização dos cadernos eleitorais, com vista à eleição presidencial, que iria realizar-se em junho desse ano. Arlindo Vicente integra a comissão que se propunha lançar a candidatura do Eng.º Cunha Leal à Presidência da República, mas perante a recusa deste em concorrer, acaba por ser apresentada oficialmente a candidatura de Arlindo Vicente à Presidência da República. Na Oposição, surge, entretanto, uma outra candidatura, a do General Humberto Delgado. Em 30 de maio os dois candidatos oposicionistas reúnem-se e concluem que a força da oposição será maior se apresentar apenas um candidato: Arlindo Vicente desiste a favor de Humberto Delgado. 
Arlindo Vicente subscreve, em 1959, uma representação ao Presidente do Conselho, Salazar, sugerindo o seu afastamento, e, também uma circular dirigida aos Democratas do Distrito de Lisboa em que são focados os pontos essenciais da luta a travar por um Portugal Democrático. Preside ao comício de comemoração do 31 de janeiro no Porto, realizado em 1960 e é agredido brutalmente no Cemitério do Prado do Repouso. 
Em 1961 Arlindo Vicente subscreve um protesto contra as sanções aplicadas ao jornal “República”, na sequência da atitude deste em relação ao desvio do paquete Santa Maria, e é detido pela PIDE quando se dirige de casa para o escritório. É encerrado no Aljube, e, em 1962, transferido para Caxias, julgado, condenado a uma pena suspensa de 20 meses de prisão e a 5 anos de inibição de direitos políticos.
Participa no II Congresso Republicano (1969), realizado em Aveiro, a cujo jantar de encerramento preside. 
A sua intensa ação política e o exercício da advocacia vão depois desviá-lo (publicamente) da Arte, até 1970, ano em que regressa em pleno à atividade artística, com uma exposição individual na Sociedade Nacional de Belas Artes, designada “Desenho e Pintura de Arlindo Vicente”, que reuniu 106 obras suas.
Entretanto, em 1971, integra o grupo fundador de AVEIROARTE, que lhe mereceu sempre especial carinho. Em 1973, integra a Comissão Nacional do III Congresso da Oposição Democrática. Realiza, em 1974, uma nova exposição individual na SNBA.
A 24 de novembro de 1977, Arlindo Vicente morre em Lisboa. 
Em 1983 é-lhe atribuído, a título póstumo, o grau de Grande Oficial da Ordem da Liberdade.