Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos

Bento António Gonçalves

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Data da primeira prisão

Quando Bento Gonçalves, Secretário-Geral do Partido Comunista Português, faleceu no Tarrafal, vítima de uma biliose, já tinha cumprido a pena a que fora condenado pelo Tribunal Militar Territorial em 3 de Agosto de 1936.

Filho de Germana Alves e de Francisco Gonçalves, caseiros da morgada de Fiães, Bento António Gonçalves nasceu em 2 de Março de 1902, em Fiães do Rio (Montalegre - Trás-os-Montes).

Órfão de mãe, em 1913, depois de concluída a instrução primária, partiu para Lisboa onde começou a trabalhar no Bairro da Sé como torneiro de madeiras e, posteriormente, tornou-se aprendiz de torneiro mecânico, profissão que manteve até ao fim da vida.

Com pouco mais de 17 anos, em 29 de Outubro de 1919, foi admitido como aprendiz no Arsenal da Marinha, onde onze anos depois, em 29 de Setembro de 1930, seria preso, e aí se manteve até 1933 como operário metalúrgico do quadro (oficinas de máquinas).

Frequentou, segundo o próprio, a Escola Industrial Afonso Domingues e, em 16 de Junho de 1922, foi alistado no Exército: aí fez serviço efectivo na Escola de Condutores Militares de Automóveis, tirou o 2.º ano do Curso elementar de Pilotagem na Escola Auxiliar de Marinha e embarcou, em Janeiro de 1924, para Angola onde, até 1926, trabalhou como torneiro mecânico de primeira classe nas Oficinas Gerais do Caminho de Ferro de Luanda e colaborou com o Sindicato Operário de Luanda, iniciando aqui a sua actividade sindicalista.

Licenciado em 25 de Março de 1926, regressou a Portugal e, no ano seguinte, deu continuidade à intervenção sindical ao intervir na reorganização do Sindicato do Pessoal do Arsenal da Marinha, afecto à organização dos Partidários da Internacional Sindical Vermelha, sendo eleito Secretário-Geral da sua Comissão Administrativa.

Em Outubro de 1927, aquando do décimo aniversário da Revolução de Outubro, integrou a Delegação Portuguesa ao Congresso dos Amigos da URSS, cuja fotografia consta dos Arquivos em Moscovo, cabendo-lhe a incumbência de fazer o discurso em seu nome.

Em 1928, em 20 de Setembro, convicto que «só o bolchevismo poderá conduzir a nossa classe à emancipação integral», tornou-se militante do Partido Comunista, sendo Secretário da Célula do Arsenal da Marinha e, em 21 de Abril do ano seguinte, com apenas 26 anos, foi eleito Secretário-Geral e participou na sua reorganização tendo em conta as condições resultantes do triunfo da Ditadura Militar de 28 de Maio de 1926: «não se podia aceitar a inactividade de trabalho comunista, tanto legal, como ilegal, neste momento em que toda a nossa organização operária se afunda em pleno marasmo, tanto do ponto de vista de ideologia, como de acção sindical». 

Em 29 de Setembro de 1930, é preso no seu local de trabalho e enviado para o forte de S. Julião da Barra (8 de Outubro), de onde seguiu para os Açores, Lajes do Pico, com residência fixa. 

Em 15 de Fevereiro de 1931, foi transferido para Cabo Verde, para as ilhas do Sal e Fogo, de onde regressou em Fevereiro de 1933. Dessa deportação resultará o filho Gabriel Baptista que, no entanto, só nasce quando Bento Gonçalves já se encontrava de novo em Portugal. 

Neste mesmo ano, em 9 de Agosto, Bento Gonçalves entrou na clandestinidade, tendo sobrevivido devido ao apoio e cotização de militantes do Partido Comunista e doutros opositores à Ditadura, como Francisco Pulido Valente: Armindo Rodrigues, no livro Um poeta recorda-se - Memórias de uma vida, refere que uma «tarde procurei-o com uma ponta de comoção e contei-lhe que o secretário-geral do Partido Comunista Português, o camarada Bento Gonçalves, força exclusiva que sem tréguas combatia a ditadura do Salazar, atravessava dificuldades tremendas, até fome sofrendo, e que urgia dinheiro para ele. Imediatamente se levantou, foi ao casaco que guardava num compartimentozinho, dele tirou a carteira».

Em Julho-Agosto de 1935, interveio no VII Congresso da Internacional Comunista organizado em Moscovo, sendo preso, juntamente com José de Sousa e Júlio Fogaça, pouco tempo depois do seu regresso, em Novembro.

Transferido para o Aljube em 20 de Dezembro de 1935, foi deportado para Angra do Heroísmo em 8 de Janeiro de 1936, condenado a 4 anos de prisão e enviado para o Tarrafal, onde chegou a 29 de Outubro do mesmo ano. Mesmo longe, vivendo em condições inimagináveis para os vindouros, é (mais uma vez) um dos obreiros da reorganização do Partido Comunista iniciada e concretizada em 1941-1942. Aí dirigiu a Organização Prisional Comunista e redigiu «Palavras Necessárias» e «Duas Palavras».

Nome muito respeitado por todos aqueles que com ele conviveram no local de trabalho, na tropa, no Partido Comunista, nas prisões e deportações, Bento Gonçalves faleceu aos 40 anos, sem a devida assistência médica no Campo de Concentração do Tarrafal.

Em 1973, Virgínia de Moura editou Palavras Necessárias. A vida do proletária em Portugal de 1872 a 1927, com introdução sua e de António Lobão Vital.