Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos

Cândido Fernandes Plácido de Oliveira

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Data da primeira prisão

Destacado casapiano e desportista, Cândido de Oliveira foi um corajoso antifascista, íntegro e solidário, cuja vida não se resume à de jogador, treinador, dirigente e seleccionador de futebol, ou de jornalista desportivo.

É difícil olhar separadamente todas estas facetas no seu percurso de cidadão. É talvez a figura mais importante do futebol português do século XX, um nome omnipresente na história dessa modalidade desportiva, que é lembrado sempre que se refere a Supertaça organizada pela Federação Portuguesa de Futebol. Foi também fundador, em 1945, do jornal A Bola, mas antes tinha passado um longo período nas prisões políticas fascistas e no Campo de Concentração do Tarrafal.

Grande figura humana, um democrata convicto que tomou desassombradas posições públicas contra os regimes de Hitler, de Mussolini, de Franco e Salazar. A sua coragem moral só teve paralelo na sua coragem física.

Cândido Fernandes Plácido de Oliveira nasceu em Fronteira, distrito de Portalegre, a 24 de Setembro de 1896, e entrou para a Casa Pia de Lisboa em 1905, depois de ter ficado órfão. Bom aluno, vivia ainda na Casa Pia quando começou a demonstrar paixão pelo futebol e enorme aptidão para a prática desportiva. Terá sido também nessa instituição que adquiriu uma educação de fortes valores humanistas. Ao aperceber-se das injustiças do mundo, não tardou a dedicar-se a causas sociais.

Revelando grande capacidade como futebolista, começou a jogar no Benfica em 1914/15 e manteve-se de águia ao peito até 1920. Nesse mesmo ano, funda juntamente com outros casapianos o Clube Atlético Casa Pia, um velho sonho de vários alunos e ex-alunos dessa instituição. Depois, iria ser ele o primeiro «capitão» da Selecção Nacional, no primeiro jogo disputado com a Espanha (Madrid, em 1921).

Por várias vezes ocupou o cargo de Seleccionador nacional (foi com ele o primeiro êxito da Selecção Nacional, nos Jogos Olímpicos de Amesterdão, em 1928). Foi também treinador do Sporting Clube de Portugal, no tempo dos «cinco violinos», vencendo o campeonato nacional da I Divisão. Foi ainda treinador da Académica, do Belenenses, do FC Porto e do Atlético; e chegou a orientar o Flamengo, do Brasil, em 1950-51.

Entretanto, ainda na década de 20, Cândido de Oliveira faz reportagens de futebol no jornal O Século. Além de jogador, árbitro e seleccionador, iniciara uma carreira de jornalista. Escreveu na «Stadium», foi director de «Os Sports», jornalista do «Diário de Lisboa», do «Diário de Notícias» e do «Século». Ganhava, então, cada vez maior prestígio na imprensa lisboeta.

Detido pela polícia política (PVDE) em diversas ocasiões, nada o impedia, porém, de continuar a criticar pública e abertamente os regimes de Mussolini, Hitler, Franco e Salazar. Nos anos 40, durante a II Guerra Mundial, quando era Inspector Superior dos Correios de Lisboa (CTT), foi agente secreto para a Inglaterra e seus aliados. Integrou, como agente PAX, a rede inglesa do SOE (Special Operations Exectuive), sendo um dos responsáveis pela montagem de uma rede secreta alternativa de rádio-telegrafistas e pela organização de grupos de resistência activa e passiva, em caso de invasão de Portugal pela Alemanha nazi.

Aos 46 anos, às 5 horas da manhã de 1 de Março de 1942, Cândido de Oliveira foi preso e barbaramente espancado e torturado na polícia política, que lhe partiu quase todos os dentes e lhe abriu uma brecha na cabeça. Permaneceu na prisão de Caxias durante três meses, antes de ser enviado para o Tarrafal, em 20 de Junho de 1942. Aí sofreu as agruras do Campo de Concentração, durante 18 meses, até ser trazido para Lisboa e internado no Hospital Júlio de Matos. Dali, foi sucessivamente conduzido para as prisões do Aljube, de Caxias, e novamente Aljube, até sair em liberdade condicional em Maio de 1944.

Durante o tempo em que esteve deportado, a rede secreta de rádio-telegrafistas, por si montada, manteve-se quase intacta e em funcionamento. O facto de viver do lado de fora do Campo e não estar obrigado a trabalhos forçados, permitiu-lhe ser um importante elo de transmissão de informações de fora para dentro, e entre os presos e o exterior, incluindo o continente.

Em 1945 é demitido dos correios telégrafos e telefones (CTT), onde trabalhara longos anos e atingira a elevada função de inspector. Funda, por essa altura, com António Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo, o então bi-semanário jornal A Bola, no qual teve o apogeu da sua carreira jornalística – assinando crónicas e artigos modelares, inclusive do ponto de vista literário –, e nele colaboraria até à sua morte.

Já a trabalhar no jornal A Bola, Mestre Cândido de Oliveira, como era carinhosamente tratado, procurou ajudar todos os ex-tarrafalistas e outros companheiros que o procuravam e foram muitos. Deu a este periódico desportivo um importante carácter cultural e oposicionista que perdurou no tempo da Ditadura, sendo vários os elementos da redacção com militância activa clandestina.

Faleceu de pneumonia, em Estocolmo, quando fazia a cobertura jornalística do Campeonato do Mundo de Futebol (1958). Os jornais deram a notícia, referindo-se à sua morte como tendo desaparecido do tablado desportivo a sua figura de maior projecção.

Cândido de Oliveira escreveu «Tarrafal, o pântano da morte», editado postumamente em 1974, com nota prévia de José Magalhães Godinho (com quem conspirara) e capa de Stuart de Carvalhais dedicado À memória dos 30 mortos que repousam no cemitério do Tarrafal; Aos mártires do Campo de Concentração do Tarrafal de Santiago de Cabo Verde; Aos heróis e mártires da luta antifascista. Nesse livro, que nunca terá chegado a concluir, elenca, a abrir, os doze nomes que considera como principais responsáveis pela criação e manutenção daquele campo, onde os presos eram sujeitos a um regime de morte lenta; publica os 30 nomes dos que ali morreram, depois de há muito terem cumprido a pena a que tinham sido condenados; e refuta a designação de o Tarrafal se tratar de uma Colónia Penal: «Com a sua construção, havia a certeza de que a maioria dos deportados seria dizimada pela biliosa ou ficaria com a saúde tão abalada pelo paludismo crónico que, regressando à Metrópole, não teriam vontade de prosseguir na actividade antifascista!».

Pelo seu papel no futebol português foi dado o seu nome à Supertaça, instituída pela Federação Portuguesa de Futebol.

Condecorado pelos ingleses, recebeu em Portugal, a título póstumo, em 1990, a Grã Cruz da Ordem de Mérito.

Em 2000, o jornalista Homero Serpa, seu colega, escreve «Cândido de Oliveira, uma biografia». Editorial Caminho, Lisboa, 2000.