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José Mendes Cabeçadas Júnior

José Mendes Cabeçadas Júnior
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José Mendes Cabeçadas Júnior, filho de Maria da Graça Guerreiro e de José Mendes Cabeçadas, nasceu a 19 de Agosto de 1883, em Lagoa de Momprolé, Loulé, onde os seus pais se dedicavam a um negócio de frutos secos e de cortiça.
Após concluir a 4.ª classe, foi para Faro, onde ficou em casa do seu tio Joaquim (futuro General Cabeçadas) e, mais tarde, irá para Évora, onde terminará o liceu.
Entretanto, os pais haviam adquirido uma fábrica de cortiça em Alhos Vedros, mudando-se assim para Lisboa.
José Mendes Cabeçadas frequenta a Escola Politécnica e, em dezembro de 1902, assenta praça no Regimento de Cavalaria n.º 2 - Lanceiros de El-Rei, entrando depois para a Escola Naval, em outubro de 1903. Concluirá o curso em 1908, sendo promovido a guarda-marinha em abril desse ano.
Embarcou de seguida na canhoneira "Diu", que integrou a Divisão Naval do Índico em maio do mesmo ano, prestando serviço em Moçambique até dezembro de 1909, onde conheceu Machado dos Santos.
Regressado a Lisboa em janeiro de 1910, adere à Carbonária, ao mesmo tempo que é colocado sucessivamente no cruzador "D. Carlos", na fragata "D. Fernando e Glória" e nos cruzadores "Adamastor" e "S. Rafael" – foi neste último que fez o exame para 2.º tenente, posto a que ascendeu em setembro.
Influenciado pelos valores republicanos, vai desempenhar um papel relevante na Implantação da República. Terá sido Machado Santos a entregar-lhe, para hastear no “Adamastor”, uma bandeira verde-rubra bordada em segredo por Adelaide Cabete e Carolina Beatriz Ângelo.
À uma hora e dez minutos da madrugada do dia 4 de outubro de 1910, o tenente Ladislau Parreira e alguns oficias e civis introduziram-se no Quartel do Corpo de Marinheiros de Alcântara e conseguiram armar-se, sublevar a guarnição e aprisionar os comandantes. Os marinheiros tentaram seguidamente atacar o Palácio Real das Necessidades, mas essa ação foi impedida por forças militares fiéis à monarquia, que acabaram por cercar o Quartel do Corpo de Marinheiros.
Cerca das 7 da manhã, Ladislau Parreira enviou o 2.º tenente Tito de Morais para bordo do cruzador S. Rafael, cuja tripulação havia declarado o seu apoio à revolta republicana, enquanto Mendes Cabeçadas tomava o comando da tripulação sublevada do cruzador Adamastor.
Só restava o cruzador D. Carlos (o navio almirante), em que a tripulação se sublevara igualmente, mas os oficiais se haviam entrincheirado a bordo. Foi necessário enviar do S. Rafael o tenente Carlos da Maia com alguns marinheiros e civis que tomaram o D. Carlos – ficando assim os 3 cruzadores surtos no Tejo na mão dos republicanos. Seguidamente, e dando seguimento às decisões tomadas no quartel dos Marinheiros por Ladislau Parreira, Carlos da Maia e Mendes Cabeçadas, tomaram posição frente a Alcântara e, a partir das 11.00 do dia 4 de outubro, o Adamastor disparou mais de 40 granadas sobre o palácio real, atingindo a cornija da capela das Necessidades e o próprio quarto de D. Manuel II e cortando também o mastro em que estava hasteado o pavilhão real – lançando a confusão nas forças militares que defendiam o palácio e obrigando à fuga do rei, em direção a Mafra..
Os três cruzadores posicionaram-se depois frente à Praça do Comércio, sendo disparados tiros de artilharia ligeira sobre o Rossio onde estavam concentradas as tropas fiéis à monarquia. Deste modo, desfez-se a pressão sobre o Quartel dos Marinheiro e sobre a própria Rotunda, abrindo caminho à vitória republicana
Implantada a República, Mendes Cabeçadas será promovido por distinção, em 18 de novembro de 1910, a capitão-tenente.
Foi iniciado na Maçonaria em 1911 na Loja Pureza, de Lisboa, com o nome simbólico de "Adamastor". Transitou depois para as lojas Vulcano (em 1912) e O Futuro (1923).
Eleito para a Assembleia Constituinte pelo círculo de Silves, desempenhou o lugar de deputado na Câmara dos Deputados do Congresso da República por Silves de 1911 a 1915 e por Aljustrel de 1915 a 1917 e em 1921.
Desempenhou também funções de Capitão do Porto de Vila Real de Santo António e de Governador Civil de Faro por três vezes.
Distanciou-se politicamente do partido Democrático, ingressando no Partido da União Republicana. Após o assassinato de Sidónio Pais, aderiu ao Partido Liberal Republicano, que resultou da conjugação dos partidos Unionista e Evolucionista e defendeu, a partir de 1925, uma reforma profunda da República.
Tal conjuntura conduziu-o à participação nas revoltas militares de 18 de abril e 19 de julho de 1925, comandando a revolta do cruzador Vasco da Gama. Ficou famoso o rádio que mandou ao Comando Geral da Armada, antes de ser enviado para o presídio militar: "Por ser ridícula qualquer resistência, eu rendo-me com a guarnição deste navio que, num país de covardes, mostrou que o não é." Assinado "Cabeçadas"
Não parou aí a sua ação, sendo um dos chefes do golpe militar de 28 de maio de 1926. Com o posto de Capitão-de-Fragata, dá o grito de revolta do golpe de 28 de maio de 1926 em Lisboa, depois de em Braga Gomes da Costa ter tomado idêntica atitude, iniciando-se assim um pronunciamento militar que exigia ao Presidente da República a substituição do governo legitimado por um “Governo de competências”.
Assumiu transitoriamente o cargo de Presidente da República entre 31 de maio e 16 de junho de 1926. Liderou, por poucos dias, um governo ditatorial que acumulava a maioria das pastas ministeriais, mas foi afastado a 17 de junho por outras fações da conspiração ditatorial. Nesse dia, assinou o seu próprio decreto de demissão, numa “atitude retumbante”, por não querer provocar “efusão de sangue”. 
Em escrito deixado como legado sobre os acontecimentos, mostrou-se arrependido do seu desempenho e passou, a partir daí a combater a Ditadura Militar que governava o país e o Estado Novo que lhe sucedeu, afirmando a sua crença fortíssima na ideia de Liberdade.
Promovido, entretanto, a contra-almirante, liderou, a partir de 1932, a construção do Novo Arsenal do Alfeite.
Manteve, no entanto, as suas convicções liberais e participou, com Adão e Silva, Raul Rego e outros na Aliança Republicana Socialista, que defendia a transição democrática do regime através de eleições. 
Manteve-se sempre ativo na Maçonaria, tendo desempenhado o cargo de vice-presidente do Conselho da Ordem durante a clandestinidade.
Em 1943 integrou o «comité revolucionário secreto» do Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF) e, dois anos mais tarde, apoiou publicamente o Movimento de Unidade Democrática (MUD), quando da sua constituição. Liderou os golpes militares de 1946 e 1947, tentativas de derrube da ditadura, na sequência das quais foi preso, julgado e compulsivamente reformado (a publicar brevemente no memorial2019.org).
Participou nas atividades do Diretório Democrato-Social e apoiou ativamente as candidaturas presidenciais democráticas do Almirante Quintão Meireles (1951) e do General Delgado (1958). Em 1961, já gravemente doente, foi um dos três primeiros subscritores do Programa para a Democratização da República, com Mário de Azevedo Gomes e Jaime Cortesão.
Com frequência, juntava-se na pastelaria “Mexicana”, na Praça de Londres, com outros maçons, antigos companheiros de ideais, como Luís Dias Amado, Luís Rebordão, Fernando Vale, Simões Coimbra, Cunha Leal ou Adão e Silva. 
Faleceu a 11 de junho de 1965.

REFERÊNCIAS
Biografia a partir do texto de Luís Farinha
Revista da Armada n.º 445, de setembro/outubro 2010, comemorativa do Centenário da Implantação da República (https://www.marinha.pt/Conteudos_Externos/Revista_Armada/2010/445/)
“As Raízes do Tempo que passa”, dedicado a José Mendes Cabeçadas, de Fernanda Paraíso
RTP Ensina - Extrato de Documentário de Alexandrina Pereira e Rui Pinto de Almeida
https://mendescabecadas-maratona.blogspot.com/2015_08_01_archive.html#
Agradecimentos a Helena Cabeçadas e Graça Aníbal