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Ludgero Pinto Basto

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Data da primeira prisão

Médico antifascista, homem íntegro, de reconhecido valor intelectual e moral, Ludgero Pinto Basto teve uma vida inteiramente dedicada aos ideais de solidariedade humana e igualdade social. Militou no Partido Comunista Português, de que foi dirigente na década de 30. Cumpriu uma pena de 38 meses de prisão, incluindo 2 anos de deportação. Durante dezenas de anos prestou apoio médico aos funcionários clandestinos do PCP.
Ludgero Eugénio Pinto Basto nasceu na Lixa a 13 de Janeiro de 1909, e faleceu em Lisboa a 23 de Maio de 2005. Filho de uma professora primária e de um comerciante, estaria indicado para substituir o pai quando este faleceu. A mãe teve de se ocupar do balcão da loja, além das aulas. Ainda jovem ficara com três filhos para cuidar. Ludgero tinha cinco anos, Aníbal três e o mais novo, Ernâni, pouco mais do que um ano. Porém, Ludgero, que não sentia qualquer vocação para aquele negócio, teve de esperar até aos 17 anos, idade em que a mãe aceitou mandá-lo estudar. Em três anos fez o ensino secundário, no Colégio Almeida Garrett, no Porto; e em 1928, com 19 anos, entrou para os preparatórios de Medicina na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Em 1929 transferiu-se para a Faculdade de Medicina de Lisboa. 
Aderiu à loja maçónica “Rebeldia” que, em 1931, organizou uma greve académica de apoio à Revolta da Madeira, mas não tardou a afastar-se da Maçonaria e a aproximar-se do Partido Comunista Português (PCP) e foi já na semiclandestinidade que, em 1935, concluiu o curso e, conseguindo iludir a vigilância da polícia política, abriu um consultório na zona da Penha de França, em Lisboa, recorrendo ao apelido da mãe, que pouco utilizava “Ferreira Pinto”.
Começa então intensa atividade partidária: integrou e dirigiu o Comité Regional de Lisboa em 1932, tendo sido representante do PCP na organização da “greve insurreccional de 18 de janeiro” de 1934. Em julho de 1934 entrou para a clandestinidade e em 1936 já pertencia ao Comité Central do PCP. Foi o responsável do Comité Central (CC) na articulação directa com os marinheiros da sublevação da ORA-Organização Revolucionária da Armada, que ocorreu a 8 de setembro de 1936 (Revolta dos Marinheiros). Em 1936 (integrando o CC), esteve presente na reunião de quadros que procedeu à recomposição da direcção do Partido Comunista – Comité Central e Secretariado –, fustigada por sucessivas prisões.
Em março de 1937, o Secretariado envia-o a Espanha em missão relacionada com a coordenação das ligações do Partido com o exterior. Regressou a Portugal e em maio de 1937 vai a Paris (juntamente com Alberto Araújo, membro do Secretariado), em missão novamente relacionada com as ligações externas do Partido: assegurar a ligação à Internacional Comunista e intervir junto da Federação dos Emigrados Portugueses, organização que desenvolvia um importante trabalho de solidariedade e de denúncia do envolvimento do fascismo português na Guerra Civil de Espanha. Nesse país passou a ter também a responsabilidade pelo trabalho do Partido junto da Frente Popular Portuguesa, em França, chegando a ser director do jornal desta organização, UNIR. Em Paris, na sede de um sindicato operário, fez inspecções médicas aos candidatos que queriam ingressar nas Brigadas Internacionais. 
Foi depois para Espanha, onde esteve de setembro de 1937 a fevereiro de 1938, como delegado do PCP. Regressa a Lisboa passando por Paris, e passa a trabalhar junto do Secretariado. Colaborou então na preparação da fuga de Pavel do Aljube, em maio de 1938. 
De setembro de 1938 a 1 de dezembro de 1939 assegura o funcionamento do secretariado político do PCP e, a partir de Abril de 1939, integra formalmente o triunvirato do Secretariado, com Álvaro Cunhal e Francisco Miguel. 
Ludgero Pinto Basto é preso a 1 de dezembro de 1939, em Benfica, (Lisboa) quando, com Francisco Miguel, ia encontrar-se com outros membros do comité central. A 29 de Fevereiro de 1940, na prisão, legalizou o seu casamento com a companheira Brízida. Foi julgado em 18 de maio de 1940 e condenado a 20 meses de prisão, mas acabou por ficar quase quatro anos nos presídios do Aljube, Caxias e Angra do Heroísmo, de onde regressou em 1943 para Caxias, e só então foi libertado. 
A evolução política na União Soviética, sob a direção de Estaline – sobretudo os “processos de Moscovo”, onde os “companheiros de Lenine” foram acusados de contra-revolucionários e executados – mereceu a sua crítica interna no PCP, mas sem pôr em causa a sua fidelidade à linha partidária. “Se a crítica, que então fez do estalinismo foi tímida, isso deveu-se unicamente ao rigor político do tempo, que não tolerava que se beliscasse o “pai dos povos”, mas sempre acusou Estaline de ter pervertido o projecto de Lenine” (António Melo, Público, 25-05-2005).
Em liberdade, retomou a actividade como médico e especializou-se em endocronologia, disciplina clínica de que foi percursor em Portugal. 
Continuou o trabalho partidário, mas já não na clandestinidade. Participante activo nos movimentos de oposição democrática, Ludgero Pinto Basto envolveu-se na actividade do Movimento de Unidade Democrática (MUD), na década de 40, e na campanha presidencial do general Norton de Matos (1949). Ligado ao movimento associativo, integrou a direcção da Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal. Em 1966, passou novamente pela prisão quando era correspondente da agência noticiosa France Presse, acusado da publicação de notícias «falsas e tendenciosas» sobre o País. Em 1968, participou na Assembleia Geral da Ordem dos Médicos, em representação do Conselho Regional de Lisboa, para a qual foi eleito numa lista unitária. 
“A deliquescência do regime soviético só o surpreendeu por tardia, porque tinha fundadas dúvidas sobre aquele “socialismo real”. Por isso discordava que se falasse de “utopia comunista” para caracterizar o século XX. Considerou, até ao fim, que um tal projecto de sociedade permanecia válido, convencido de que “todas as misérias do capitalismo se mantinham e até se exacerbaram em certos sítios”. Preocupação séria para si era ver a tendência crescente para um individualismo egoísta e “as pessoas menos interessadas na evolução da sociedade do que no princípio do século XX” (António Melo, Público, 25-05-2005).
Ao nível partidário, integrava clandestinamente o sector dos médicos e, após o 25 de Abril, fez parte do sector da Saúde da Organização Regional de Lisboa do Partido. Em 1983, foi eleito para os corpos sociais da União dos Resistentes Antifascistas Portugueses.
Em Abril de 2004 foi agraciado com o grau de grande oficial da Ordem da Liberdade.