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Maria Julieta Guimarães Gandra

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Data da primeira prisão

Natural de Oliveira de Azeméis, nasceu a 16 de setembro de 1917, filha de Mário Gandra e de Aurora Rocha Guimarães Gandra.
Licenciou-se em Medicina, em Lisboa. Conheceu entretanto Ernesto Cochat Osório, natural de Angola, com quem veio a casar e a ter um filho. Em meados dos anos 40, o casal parte para Angola.
Em Luanda, Julieta Gandra depressa se torna conhecida como médica ginecologista. Atende no seu consultório da Baixa luandense as mulheres da elite branca e atende, nos musseques, as mulheres angolanas, circulando, com igual desenvoltura, nos dois meios. Frequenta o Cine Clube e a Sociedade Cultural de Angola, convivendo com diversos intelectuais que irão estar na origem do Movimento Popular de Libertação de Angola.
Durante a campanha presidencial de 1958, num comício de apoio a Humberto Delgado, dirigiu-se, no início da sua intervenção, às «mães negras», essas que tão bem conhecia do seu trabalho enquanto médica. Presa no Verão do ano seguinte, outras mães, brancas essas, viriam a exigir que continuasse a prestar-lhes assistência – o que as autoridades, surpreendidas, acabaram por permitir.
Acusada de conspirar contra a segurança externa do Estado, foi presa em 24-08-1959 e julgada no Tribunal Militar Territorial de Luanda (Proc. n.º 47/59, no âmbito do chamado "processo dos cinquenta") - os diversos arguidos foram acusados de ter a intenção de "separar, por meios violentos ou ilegais, o território de Angola da Mãe-Pátria".
Sem poder contar sequer com o apoio de um advogado – já que o seu fora detido em Lisboa quando se preparava para embarcar, viu-se condenada a doze meses de prisão, pena aumentada para dois anos de prisão maior e medidas de segurança de seis meses a três anos, após recurso do Ministério Público. Julieta recorreu por sua vez – mas o novo julgamento, desta feita em Lisboa, veio apenas aumentar-lhe a pena para quatro anos de prisão maior e medidas de segurança.
Em 1964, a cumprir pena em Caxias, com a saúde muito debilitada, foi indicada como «prisioneira do ano» pela Amnistia Internacional, saindo em liberdade em julho de 1965. Fica então a viver em Lisboa, numa casa que cedo se torna ponto de encontro de ativistas e militantes anticoloniais e com consultório na rua Manuel da Maia.
Após o 25 de Abril de 1974, volta para Angola – acompanhada por Fernanda Tomás, que conhecera na prisão – para aí preparar as bases do Serviço Nacional de Saúde. Mas é a sua saúde que se deteriora e a obriga a regressar a Portugal, em 1978. Morreu a 8 de outubro de 2007, com 90 anos.