Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos

Mário Alberto Nobre Lopes Soares

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Data da primeira prisão

Filho de João Lopes Soares, professor, pedagogo e político da I República, e de Elisa Nobre Soares, Mário Alberto Nobre Lopes Soares nasceu em Lisboa, a 7 de Dezembro de 1924.

Desde os tempos de estudante universitário foi um ativo resistente à ditadura, participando na organização da oposição ao salazarismo. Pertenceu ao MUNAF (Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista), em Maio de 1943 e foi depois membro da Comissão Central do MUD (Movimento de Unidade Democrática), sob a presidência do Prof. Mário de Azevedo Gomes (1946). Foi um dos fundadores do MUD Juvenil e membro da primeira Comissão Central.

A sua atividade política levou-o à prisão e estava preso quando, a 22 de fevereiro de 1949, casou por procuração – embora com registo na 3.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa – com a atriz Maria de Jesus Simões Barroso.

Nesse mesmo ano foi Secretário da Comissão Central da Candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República. 
Militante do Partido Comunista Português, vir-se-ia a afastar deste no princípio dos anos 50. Nessa mesma década, integrou o Directório Democrático-Social (1955), dirigido por António Sérgio, Jaime Cortesão e Azevedo Gomes e, em 1958, pertenceu à Comissão da Candidatura do General Humberto Delgado à Presidência da República.

Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1951, e em Direito, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, em 1957.

Como tantos outros antifascistas que, pela sua atividade política, eram proibidos de exercer funções públicas, incluindo no área da Educação, foi professor do ensino secundário (particular) e diretor do Colégio Moderno, fundado por seu pai.

Exerceu a advocacia durante muitos anos e, como advogado defensor de presos políticos participou em numerosos julgamentos, realizados em condições dramáticas, no Tribunal Plenário da Boa Hora (Lisboa) e no Tribunal Militar Especial.

Representou a família do General Humberto Delgado na investigação do assassinato daquele antigo candidato à Presidência da República, tendo contribuído decisivamente para desvendar as circunstâncias e denunciar as responsabilidades nesse crime cometido pela polícia política de Salazar (PIDE).

Foi membro da Resistência Republicana e Socialista, na década de 50, redator e signatário do Programa para a Democratização da República em 1961, tendo sido candidato a deputado pela Oposição Democrática em 1965 e pela CEUD, em 1969.

Em resultado da sua atividade política contra a ditadura foi 12 vezes preso pela PIDE (cumprindo um total de quase 3 anos de cadeia), deportado sem julgamento para a ilha de S. Tomé em 1968 e, em 1970, forçado ao exílio em França, durante o qual foi «Chargé de Cours» nas Universidades de Vincennes (Paris VIII) e da Sorbonne (Paris IV), tendo sido igualmente professor associado na Faculdade de Letras da Universidade da Alta Bretanha (Rennes) - Universidade que veio a conceder-lhe o doutoramento «Honoris Causa».

Em 1973, no Congresso realizado em BadMünstereifel, na Alemanha, a Acção Socialista Portuguesa, que fundara em 1964, transformou-se em Partido Socialista, do qual Mário Soares foi eleito Secretário-Geral e sucessivamente reeleito no cargo ao longo de quase treze anos.
Em 25 de Abril de 1974, Mário Soares estava no exílio em França, de onde regressou a Portugal no dia 28. Passados poucos dias, seria enviado pela Junta de Salvação Nacional às capitais europeias para obter o reconhecimento diplomático do novo regime democrático.

Participou nos I, II e III Governos Provisórios, como Ministro dos Negócios Estrangeiros, e no IV, como Ministro sem Pasta, tendo-se demitido na sequência do chamado «caso República», abrindo assim uma crise governamental que levou à queda desse Governo e à nomeação de um efémero V Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves, vindo a apoiar a formação do VI Governo, de Pinheiro de Azevedo e as operações militares do 25 de novembro de 1975, na sequência do período que ficou conhecido por «Verão quente».

Como Secretário-Geral do PS participou em todas as campanhas eleitorais, tendo sido deputado por Lisboa em todas as legislaturas, até 1986.

Como Secretário-Geral do PS e Vice-Presidente da Internacional Socialista (IS) - cargo para que foi eleito no Congresso de Genève, em 1976, e depois sucessivamente reeleito até ser nomeado Presidente Honorário em 1986 - Mário Soares desenvolveu uma intensa atividade internacional. Foi presidente das Comissões da IS para o Médio-Oriente e para a América Latina, tendo realizado várias missões de informação àquelas zonas e bem assim à África Austral. Participou em numerosas negociações, encontros, colóquios, congressos e missões no quadro da Internacional Socialista e fora dele.

Em consequência da vitória do PS nas primeiras eleições legislativas realizadas em 1976, foi nomeado Primeiro-Ministro do I Governo Constitucional (1976-77), tendo também presidido ao II (1978).

Rompido que foi, por denúncia unilateral do CDS, o acordo político de incidência governamental em que assentava o II Governo Constitucional e demitido o Executivo pelo então Presidente da República, general Ramalho Eanes, Mário Soares liderou a oposição entre 1978 e 1983.

A primeira revisão da Constituição da República, feita nesse período, criou o Conselho de Estado, para o qual Mário Soares foi eleito pelo Parlamento.

Após nova dissolução da Assembleia da República, ocorrida em 1983, e na sequência das eleições legislativas que voltaram a dar a vitória ao PS, foi nomeado Primeiro-Ministro do IX Governo Constitucional, com base numa coligação partidária PS/PSD (1983-85). Coube a esse Governo ultimar o processo de adesão de Portugal à CEE, conduzir as últimas negociações e assinar o Tratado de Adesão, em Junho de 1985.

Apesar de o PS ter perdido as eleições de Outubro de 1985, realizadas por força de nova dissolução da Assembleia da República, em consequência do rompimento, pelo PSD, da coligação PS/PSD, Mário Soares candidatou-se às eleições presidenciais, previstas para Janeiro de 1986. Teve o apoio de independentes e do PS (na 1ª volta) e de toda a esquerda (na 2ª volta), tendo sido eleito em 16 de Fevereiro, por cinco anos.

Foi o primeiro Presidente civil eleito diretamente pelo povo, na história portuguesa. Renunciou então aos seus cargos de Secretário-Geral do PS e de deputado, tendo tomado posse e prestado juramento no dia 9 de Março de 1986.

Em 13 de Janeiro de 1991 foi reeleito Presidente da República, logo à 1ª volta, tendo obtido 70,40% dos votos validamente expressos. Terminado o seu segundo mandato em 9 de Março de 1996 e tornou-se membro do Conselho de Estado em 1996, por inerência.

Em 10 de Março desse mesmo ano assumiu a presidência da Fundação que havia sido fundada em 1991 com o seu nome e, em 1997, foi eleito presidente da Fundação Portugal-África.

Foi ainda presidente da Comissão Mundial Independente Sobre os Oceanos (1995-1998), do Movimento Europeu Internacional (1997-1999), de que em seguida se tornou presidente honorário, do Comité dos Sábios para a Reestruturação do Conselho da Europa (1997-1998), da Missão de Informação sobre a situação da Argélia, por nomeação do Secretário-Geral das Nações Unidas (1998), da Delegação do Parlamento Europeu para as relações com Israel (2002), de que se demitiu no mesmo ano, e da Inter-Press Service (2002-2008). Entre muitas outras atividades, foi ainda presidente do Comité Promotor do Contrato Mundial da Água desde Janeiro de 1998, Patrono do International Ocean Institute (IOI), desde 2009 e presidiu ao Júri do Prémio Félix Houphouët-Boigny, da UNESCO, desde o início de 2010.

Em 1999 foi eleito Deputado ao Parlamento Europeu, tendo cumprido toda a legislatura (1999-2004).
Em 2006 concorreu, de novo, a Presidente da República, pelo PS, tendo perdido as eleições para Aníbal Cavaco Silva.

Maria de Jesus Simões Barroso Soares, com quem casara em 1949, faleceu a 7 de julho de 2015. Mário Soares sobreviveu-lhe cerca de ano e meio. Faleceu a 7 de Janeiro de 2017 em Lisboa.