Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos

Sacuntala de Miranda

025379
Data da primeira prisão

Filha de uma açoriana e de um indiano natural de Goa, Sacuntala de Miranda nasceu em Ponta Delgada, nos Açores a 7 de Novembro de 1934, acompanhando quatro anos depois os pais para Goa.

No início da II Guerra regressou aos Açores, e ali fez os primeiros estudos. Licenciou-se depois em Lisboa em Ciências Histórico-Filosóficas.

Activista nos movimentos estudantis, tornou-se amiga de vários militantes dos movimentos pró independência das colónias. Ligada à Oposição Democrática, pertenceu ao Movimento para a Paz, ao MUD juvenil – de que foi dirigente – e mais tarde ao PCP, de que viria a afastar-se nos anos 60.

Terminada a licenciatura, e tendo já sido detida em Dezembro de 1953, não foi autorizada a ensinar em estabelecimentos públicos. Valeu-lhe o refúgio no ensino no Colégio Moderno. Em 1959, já com a tese da licenciatura, foi autorizada a dar no Liceu Rainha D. Leonor aulas de História, Filosofia e Organização Política, tentando, nesta disciplina, trocar a defesa da teoria política do Estado Novo pelo respeito pela Democracia e Liberdade de pensamento.

As pressões da PIDE junto do liceu para o seu afastamento e a solidariedade com o seu pai, exilado em Londres devido à sua posição acerca da integração de Goa na União Indiana, levam-na e ir viver para Inglaterra, onde se licenciou em Sociologia, mantendo-se sempre envolvida no combate pela justiça social e a liberdade, em duas frentes principais: a luta anti-colonial e de solidariedade com os movimentos de libertação africanos e a luta sindical dos trabalhadores portugueses imigrantes.

Como outros exilados, tentou reinstalar-se em Portugal na «primavera Marcelista», mas o ambiente pouco mudara e não se adaptou à irrespirável falta de liberdade de pensamento e de expressão. O longo intervalo de mais de vinte anos, que mediou entre a conclusão da tese de licenciatura e sua publicação em Portugal, traduz as vicissitudes de Sacuntala de Miranda e do país. Volta para Londres, só regressando definitivamente a Portugal após o 25 de Abril de 1974.

Ingressou então no ensino universitário, doutorando-se em história e publicando vários trabalhos de investigação, nomeadamente sobre os Açores. Foi uma das fundadoras do Departamento de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL, no final dos anos setenta, e professora do primeiro mestrado de História Contemporânea organizado em Portugal, em 1984. Tendo começado em Londres a preparação da tese de doutoramento sob a direcção de Eric Hobsbawm, veio a conclui-la na Universidade Nova de Lisboa, sob a direcção de Joel Serrão.

Em 2006 escolheu a cidade da Ribeira Grande para lançar o seu primeiro livro de poesia «O Sorriso de Satya», uma das várias obras que deixou publicadas ao longo de uma vida dedicada à investigação histórica. A Biblioteca Municipal da Ribeira Grande foi também a instituição escolhida por Sacuntala de Miranda para doar a sua obra. O seu fundo particular inclui um total de 807 livros e 101 periódicos, abrangendo as áreas de educação, filosofia, física, história, literatura, poesia, política, sociologia e teatro, sendo parte dele em língua inglesa.

Nos últimos anos de vida preocupou-se em passar o testemunho, escrevendo as suas memórias, uma autobiografia publicada em 2003: «Memórias de um peão nos combates pela liberdade». Deixou-nos nesse livro um retrato da geração dos anos 50-60, muito vivo e concreto, que permite às jovens gerações compreender essa época difícil, mas rica em combates por valores essenciais. Alguns outros textos irão completar o seu testemunho pessoal: sobre a luta académica e as eleições de Humberto Delgado («esse momento decisivo para a nossa geração e para o país»), um novo volume autobiográfico e ainda um texto sobre a integração de Goa na União Indiana.

Morreu em Cascais, a 30 de Janeiro de 2008, dia em que se completavam 60 anos da morte de Mahatma Gandhi (1869 – 1948), que exerceu forte influência no seu pensamento e nas suas atitudes perante a vida.

No dia 29 de Maio de 2012, a Câmara Municipal de Ribeira Grande promoveu uma homenagem a esta antifascista e historiadora, concedendo-lhe uma condecoração a título póstumo, e inaugurando uma rua com o seu nome, na freguesia de Conceição.