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Estêvão José Dangues Giro

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No 1.º de maio de 1962, a Baixa de Lisboa foi invadida por muitos milhares de manifestantes que gritavam, entre outras palavras de ordem, “Temos Fome!”, “Liberdade!”, “Abaixo o Fascismo!”, “Abaixo a PIDE!”, “Morra Salazar!”.
O dispositivo montado pelo governo não conseguiu, durante muito tempo, impedir os protestos, que reprimidos aqui, logo rebentavam mais além, e assim sucessivamente, como foi o caso, com especial violência, na Madalena, no Carmo e Calçada do Duque, no Rossio, no Martim Moniz e também esboçado em Alcântara, ao mesmo tempo que chegavam pelos cacilheiros muitos operários da margem Sul. 
As forças repressivas lançaram nesse dia contra os manifestantes todos os seus meios (carros de água com tinta azul, gases lacrimogéneos, a chamada companhia móvel de polícia, com capacetes militares e metralhadoras, legionários, brigadas da PIDE, soldados da GNR, apeados e a cavalo, etc.) – era evidente que o regime temia aquela manifestação, assim como outras que se realizaram na mesma data em várias localidade do país. A verdade, no entanto, é que em Lisboa, as forças repressivas só conseguiram retomar o controlo da cidade já a noite ia avançada, com carrinhas da PIDE e várias viaturas voltadas, vitrinas das Finanças e de outras instituições estilhaçadas e alguns feridos nas forças policiais.
Uma das “pontas” da gigantesca manifestação resistiu, a meio da tarde, no Largo e Rua da Madalena até ao Largo do Caldas, tentando impedir a progressão da polícia de choque. Foi nessas circunstâncias que caíu, baleado por uma rajada de metralhadora, o jovem tipógrafo de Alcochete Estêvão José Dangues Giro. Outros manifestantes levaram-no “para o Largo do Caldas onde sabíamos que havia um posto médico nas traseiras da Associação dos Empregados do Comércio” – que não queriam abrir as portas para o acolher mas que, por fim, acabaram por o receber, já morto.
Nesse 1.º de maio, realizaram-se também manifestações no Porto, em Almada, no Barreiro e na Baixa da Banheira, no Couço, em Ervidel, em Santiago do Cacém, ao mesmo tempo que ocorriam greves em localidades como Montemor-o-Novo, Escoural, Alcáçovas, Aldeia Nova, Pias, Ervidel, Grândola, Alpiarça, Pero Pinheiro.
A enorme combatividade e consciência política demonstrada por todas essas movimentações, suscitou em muitos a frustração de não terem sido organizados grupos de ação direta que enquadrassem os manifestantes e fizessem frente às forças repressivas – estas posições viriam a ser combatidas por Álvaro Cunhal, que afirmou, dois anos depois, no documento “Rumo à Vitória” que “não seriam alguns grupos armados que decidiriam do confronto com todo o aparelho repressivo fascista, quando neste não se verificaram fortes hesitações e defecções”.

Biografia que recolhe, entre outros, o testemunho presencial de Adalberto Ribeiro