Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos

Júlio Artur da Silva Pomar

019160
Data da primeira prisão

Uma das mais prestigiadas figuras da Arte Portuguesa dos séculos XX e XXI. Destacado artista plástico, militou activamente na Resistência contra a Ditadura.

No período pós II Guerra Mundial, Júlio Pomar foi influenciado por escritores neo-realistas como Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes e por artistas plásticos como o pintor brasileiro Portinari ou os muralistas mexicanos Diego Rivera, Orozco e Siqueiros, que o inspiraram a usar a arte como forma de intervenção sócio-política. Pomar tornou-se, a partir de então, num forte opositor ao regime fascista. Integrou o Movimento de Unidade Democrática (MUD) e participou nas lutas estudantis, o que lhe custou a expulsão da ESBAP. O activismo político também se reflectiu no seu trabalho.

Vítima, sistematicamente, da repressão fascista, foi ainda na década de 40, que a sua oposição ao regime de Salazar começou a acarretar-lhe grande perturbação na sua vida de artista: uma estada de quatro meses na prisão, a apreensão de um dos seus quadros pela polícia política e a ocultação dos frescos de mais de 100 m2 realizados para o Cinema Batalha no Porto. Permaneceu em Portugal até 1963, ano em que fixou residência em Paris. A mudança representou o afastamento da acção cívica que marcou o arranque da sua carreira. Irá regressar a Portugal apenas de forma esporádica e só vinte anos mais tarde adquire uma casa em Lisboa para aí instalar um segundo atelier. Expõe individualmente em Lisboa ( Galeria do Diário de Notícias, 1962, 1963) e em Paris (Galerie Lacloche, 1964, 1965), cidades onde irá expor com regularidade ao longo dos anos e construir uma carreira estável.

Júlio Pomar nasceu a 10 de Janeiro de 1926 e faleceu em 22 de Maio de 2018, em Lisboa – Frequentou a Escola António Arroio até 1941, e nela preparou o ingresso na Escola de Belas Artes de Lisboa, que frequentou entre 1942 e 1944.

Em 1942 realizou a primeira exposição no atelier em que trabalhava. Nessa altura, foi convidado por Almada Negreiros a participar na VII Exposição de Arte Moderna do Secretariado de Propaganda Nacional/Secretariado Nacional de Informação (SPN-SNI).

Nesse mesmo ano, em associação com ex-colegas da António Arroio, aluga um quarto na Rua das Flores onde instala atelier e que servirá de improvisado local para uma exposição de grupo, a primeira em que participa (com Fernando Azevedo, Pedro Oom, Marcelino Vespeira e José Maria Gomes Pereira). A mostra é visitada por personalidades de relevo do mundo das artes entre as quais António Dacosta, Diogo de Macedo, Reinaldo dos Santos e Almada Negreiros (que lhe adquire uma pintura, hoje desaparecida, Saltimbancos).

Descontente com a Escola de Lisboa, em 1944 transfere-se para a Escola de Belas-Artes do Porto, que abandonará em definitivo dois anos mais tarde na sequência de um processo disciplinar.

Participa nas Exposições Independentes (Porto e Coimbra, 1944; Lisboa, 1945), dinamizadas por Fernando Lanhas, com quem estabelece uma «estreita relação de cumplicidade».

Entre Junho e Outubro de 1945 dirige a página semanal de arte do diário A Tarde (Porto), onde divulga o trabalho dos muralistas mexicanos, do regionalista norte-americano Thomas Hart Benton, de Grosz ou Portinari, todos eles figuras de referência do neorrealismo nacional emergente.

Nos anos que se seguem colabora com críticas e textos de intervenção estética em revistas como Mundo Literário (1946-1948), Seara Nova, Vértice, Horizonte, etc. Embora afirmando a necessária independência da criação artística, em muitos desses textos irá associar o trabalho de pintor ao combate político, dando prioridade à defesa da responsabilidade social do artista na criação de uma arte acessível e interveniente. Data de 1945 a sua filiação nas Juventudes Comunistas, ilegais (abandonaria o PCP anos mais tarde, de forma gradual).

Em 1946 inicia um grande mural no Cine-Teatro Batalha, Porto. Será um dos principais organizadores (e expositores) das Exposições Gerais de Artes Plásticas realizadas na Sociedade Nacional de Belas Artes entre 1946 e 1956. Uma das suas pinturas é apreendida pela polícia política na segunda exposição, de 1947, ano em que expõe individualmente pela primeira vez (Galeria Portugália, Porto) e é preso pela PIDE, durante 4 meses, por pertencer à direcção do MUD juvenil. O mural do Cine-Teatro Batalha será destruído por imposição governamental no ano seguinte. Em 1949 é afastado do lugar de professor de desenho no ensino técnico devido à sua participação na candidatura presidencial de Norton de Matos (de quem desenha um retrato, muito divulgado na altura).

No início da década de 1950 realiza novas exposições individuais (1950, 1951, 1952); uma pintura sua é adquirida pelo Museu de Arte Contemporânea, Lisboa (1953). Em 1956 participa na fundação da Cooperativa Gravura, de que será o principal dinamizador (até 1963). Participa na I e na II Exposições de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa; 1957, 1961), onde lhe são atribuídos o Prémio de Gravura e o 1º Prémio de Pintura respectivamente. Participa na comissão organizadora (e enquanto expositor) da exposição 50 Artistas Independentes (SNBA, 1959), marco simbólico da ruptura de muitos artistas com as actividades culturais promovidas pelo governo. Realiza viagens a Madrid (1950), Paris (1951, 1956, 1961), Itália (1958), etc.

Expõe individualmente em Lisboa ( Galeria do Diário de Notícias, 1962, 1963) e em Paris (Galerie Lacloche, 1964, 1965), cidades onde irá expor com regularidade ao longo dos anos e construir uma carreira estável.

De uma obra que se prolonga por sete décadas, o autor destaca, após o período inicial, dito Neo-Realista, as exposições «Tauromachies» e «Les Courses» (Galerie Lacloche, Paris, 1964 e 1965); a participação numa mostra dedicada ao quadro de Ingres «Le Bain Turc» pelo Museu do Louvre (1971); as séries de pinturas «Mai 68» (CRS SS) e «Le Bain Turc» (Galeria 111, Lisboa); as exposições «L’Espace d’Eros» (Galerie de la Différence, Bruxelas, 1978) e «Théâtre du Corps» (Galerie de Bellechasse, Paris, 1979); «Tigres» (Gal. Bellechasse e Gal. 111, 1981 e 82); Um ano de desenho – quatro poetas no Metropolitano de Lisboa (estudos preparatórios para a estação Alto dos Moinhos) em 1984 no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, que já em 1978 promovera a sua primeira exposição retrospectiva; «Ellipses» (Gal. Bellechasse, Paris, 1984); «Mascarados de Pirenópolis» (Galeria 111, Arco, Madrid, 1988).

No início da década de noventa uma estadia no Alto Xingú, na Amazónia, está na origem das exposições «Los Indios» (Galeria 111, Arco, Madrid) e «Les Indiens» (Galerie Georges Lavrov, Paris), em 1990; a que se segue «Pomar/Brasil», antologia organizada também pelo CAM e apresentada em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Lisboa. O Ministério francês da Cultura convidou Júlio Pomar a realizar um retrato de Claude Lévi-Strauss, que precedeu o do Presidente Mário Soares para a galeria oficial do Palácio de Belém (1991). Seguiram-se as exposições «Pomar et la Littérature» (Charleroi, Bélgica, 1991), «Fables et Portraits» (Galerie Piltzer, Paris, 1994), sendo a temática ficcional retomada em «O Paraíso e Outras Histórias» (Culturgest, Lisboa, 1994), «L’Année du cochon ou les méfaits du tabac» (Galerie Piltzer, 1996). A presença da Amazónia reaparece em «Les Joies de Vivre» (Galerie Piltzer, 1997) e «Les Indiens – Xingú 1988-1997» (Festival International de Biarritz). A série «La Chasse au Snark» é mostrada em Paris (Galerie Piltzer, 1999) e em Nova-Iorque (Salander-O’Reilly Gallery, 2000).

Mostrou Pinturas Recentes, inéditas em Portugal, no Centro de Congressos de Aveiro em 2000, e em 2002 volta à Galeria 111 com a exposição «Os Três Efes – Fábulas, Farsas e Fintas», a que se sucedem «Trois travaux d’Hercule et quelques chansons réalistes» e «Méridiennes-Mères Indiennes» (Gal. Patrice Trigano, Paris, 2002 e 2004); «Fables et Fictions», esculturas e suas fotografias por Gérard Castello-Lopes (Galerie Le Violon Bleu, Sidi Bou-Said, Tunísia, 2004), que se prolonga em «A Razão das Coisas», assemblages e bronzes, também fotografados por José M. Rodrigues, Casa de Serralves, Porto (2009, depois itinerante).

Em 2004, Marcelin Pleynet comissariou uma exposição antológica no Sintra Museu de Arte Moderna – Colecção Berardo a que deu o nome «Autobiografia», e as décadas recentes da obra de Júlio Pomar foram antologiadas por Hellmut Wohl no Centro Cultural de Belém, sob o título «A Comédia Humana». Em 2008, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, incluiu numerosas assemblages inéditas na mostra Cadeia da Relação, comissariada por João Fernandes. Em 2009 expôs «Nouvelles aventures de Don Quixote et Trois (4) Tristes Tigres», em 2009 (Gal. Patrice Trigano), e em 2012-13 «Atirar a albarda ao ar» na Cooperativa Árvore, Porto, e Gal. 111, Lisboa.

Além da obra de pintura, desenho, escultura, cerâmica, gravura, etc. Júlio Pomar escreveu: «Catch Thème et Variation», «Discours sur la Cécité du Peintre», «…Et la Peinture?» (Editions de la Différence, Paris, 1984, 1985 e 2000), os dois últimos traduzidos por Pedro Tamen com os títulos «Da Cegueira dos Pintores» (Imprensa Nacional, 1986) e «Então e a Pintura» (Dom Quixote, 2003); e duas colectâneas de poesias «Alguns Eventos» e «Tratado do Dito e Feito» (Dom Quixote, 1992 e 2003).

Júlio Pomar instituiu em 2004 uma Fundação com o seu nome. Em Abril de 2013 foi inaugurado o Atelier-Museu Júlio Pomar, criado pela Câmara Municipal de Lisboa, em edifício que adquiriu na Rua do Vale nº 7, Mercês, Lisboa, o qual contou com um projecto arquitectónico de reabilitação da autoria de Álvaro Siza.