Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos

Mário Azevedo Gomes

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Data da primeira prisão

Notável silvicultor, botânico e professor universitário, foi uma figura emblemática da Resistência à Ditadura. Presidiu à comissão central do MUD. Esteve preso por duas vezes, em 1948 e 1958.

Em 1946, quando era docente do Instituto Superior de Agronomia, foi-lhe instaurado um processo disciplinar por ter redigido um manifesto crítico sobre o posicionamento de Portugal face à ONU, e dele resultou a sua demissão do lugar de professor da Universidade Técnica de Lisboa; foi readmitido em 1951, jubilando-se em 1955. Da multifacetada obra do Professor Azevedo Gomes ressaltam dois grandes contributos: o estudo e protecção da floresta portuguesa e o papel dos intelectuais, em especial dos académicos, na defesa da Democracia e da Liberdade.

Nasceu nos Açores, em Angra do Heroísmo, em 22 de Dezembro de 1885, mas veio para Lisboa com três anos. Fez o curso dos liceus em colégios particulares e no antigo liceu do Carmo e, seguidamente, matriculou-se no Instituto de Agronomia e Veterinária, onde se formou em Engenharia Agronómica, em 1907. Entrou para funcionário do Estado, em 1908, como preparador, no Laboratório de Nosologia Vegetal do Instituto Superior de Agronomia e Veterinária. Por aprovação em concurso de provas públicas, não tardou a passar a professor da Escola Nacional de Agricultura de Coimbra, mantendo-se em funções nessa escola desde 1909 até 1914. No ano lectivo de 1914-1915 ingressou, como docente, no Instituto Superior de Agronomia e Veterinária. Começou por reger o curso de Biologia Geral, mas seria nomeado, em 1915, Professor Catedrático de Silvicultura.

Foi responsável pelo Ministério da Agricultura durante escassos meses, na I República, no Governo de Álvaro da Costa. Foi fundador e primeiro director da Estação Agronómica Nacional. Dirigiu os programas de extensão rural («instrução agrícola»), entre 1919 e 1925.

Logo após o golpe de 28 de Maio de 1926, aderiu à oposição democrática, indo tornar-se uma personalidade muito conhecida e respeitada. Foi colaborador da «Seara Nova» e fez parte do grupo dos «seareiros», entre 1924 e 1940. Em 1946 presidiu à Comissão Central do Movimento de Unidade Democrática (MUD), que integrou com importantes figuras da Cultura portuguesa Em 1945: Maria Isabel Aboim Inglês, Mário de Azevedo Gomes, Fernando Mayer Garção, Gustavo Soromenho, Mário Soares, Manuel Mendes e Bento de Jesus Caraça.

Em 1948, já depois da extinção do MUD, presidiu à comissão central da candidatura à Presidência da República do General Norton de Matos. Depois dessas eleições, subscreveu o manifesto da criação da União Democrática Portuguesa e continuou a participar ativamente em diversas actividades da oposição, através de manifestos, proclamações, abaixo-assinados; intervindo nas campanhas políticas e na Comissão Promotora do Voto; participando na fundação e direcção da Causa Republicana, da Frente Nacional de Libertação Democrática e do Directório Democrata-Social. Deu também apoio à reorganização do Partido Republicano Português.

Em Novembro de 1958, foi novamente detido juntamente com Jaime Cortesão, Francisco Vieira de Almeida e António Sérgio, por promover a vinda a Portugal do deputado trabalhista inglês Aneurin Bevan, para proferir uma conferência. Foi libertado sob caução e encabeçou os protestos contra as perseguições sofridas por Humberto Delgado que culminaram no pedido de asilo deste na embaixada brasileira.

Foi o primeiro subscritor do Programa para a Democratização da República (1961), um histórico manifesto da oposição democrática, assinado por diversas figuras de grande prestígio nacional.

Durante a década de 50 e início dos anos 60, e no âmbito dos seus interesses profissionais, orientou e elaborou vários estudos dedicados ao Parque da Pena (solos, clima e aspectos dendrológicos-florestal). Em 1960, publica a obra que veio eternizar a sua paixão pelo Parque da Pena (Monografia do Parque da Pena), na qual descreve detalhadamente o património natural e edificado do Parque, bem como de espaços adjacentes, como a Tapada do Mouco, o Castelo dos Mouros, a Tapada do Inhaca e outros.

Faleceu em Lisboa a 12 de Dezembro de 1965, na sequência de um acidente de viação.