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Mário Azevedo Gomes

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Data da primeira prisão

Nasceu em Angra do Heroísmo, nos Açores, a 22 de Dezembro de 1885, filho de Manuel de Azevedo Gomes e de Alice Hensler Azevedo Gomes, filha de Elise Friederike Hensler, condessa de Edla, segunda esposa do rei D. Fernando II de Portugal, viúvo da rainha D. Maria II.
Veio para Lisboa com três anos. Fez o curso dos liceus em colégios particulares e no antigo liceu do Carmo e, seguidamente, matriculou-se no Instituto de Agronomia e Veterinária, onde se formou em Engenharia Agronómica, em 1907. 
Entrou para funcionário do Estado, em 1908, como preparador, no Laboratório de Nosologia Vegetal do Instituto Superior de Agronomia e Veterinária. Por aprovação em concurso de provas públicas, não tardou a passar a professor da Escola Nacional de Agricultura de Coimbra, mantendo-se em funções nessa escola desde 1909 até 1914. No ano lectivo de 1914-1915 ingressou, como docente, no Instituto Superior de Agronomia e Veterinária. Começou por reger o curso de Biologia Geral, mas seria nomeado, em 1915, Professor Catedrático de Silvicultura.
Foi responsável pelo Ministério da Agricultura durante escassos meses, na I República, no Governo de Álvaro de Castro. Foi fundador e primeiro director da Estação Agronómica Nacional, em Oeiras. Dirigiu os programas de extensão rural («instrução agrícola»), entre 1919 e 1925.
Colaborador da Seara Nova, logo publica, a partir do n.º 35 da revista, de 15 de maio de 1924, até ao n.º 41, de 1 de fevereiro de 1925, o artigo "No Governo", apresentando um relatório da sua breve passagem pelo ministério da Agricultura, envolvendo, designadamente, "questões de abastecimento", "medidas de fomento", "a actividade técnica do Ministério" e "Simplificação de serviços e redução de despesas".
Imediatamente após o golpe de 28 de Maio de 1926 e a implantação da "Ditadura Militar", Mário de Azevedo Gomes manifestou a sua discordância frontal com a "situação", apoiando as principais ações da oposição democrática e participando em várias das estruturas legais criadas.
Será, até finais dos anos 50, um dos principais "seareiros", assinando 58 artigos de grande destaque, com intervenções políticas e cívicas marcantes.
Mário de Azevedo Gomes participa, em dezembro de 1943, na constituição do MUNAF (Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista) e, mais tarde, integra a Comissão Central do Movimento de Unidade Democrática (MUD), com Bento de Jesus Caraça, Fernando Mayer Garção, Gustavo Soromenho, Manuel Mendes, Maria Isabel Aboim Inglês e Mário Soares.
Em agosto de 1946, Mário de Azevedo Gomes e Bento de Jesus Caraça, ambos professores catedráticos da Universidade Técnica, foram os primeiros signatários, em nome da Comissão Central do M.U.D., do documento intitulado “O M.U.D. perante a admissão de Portugal na ONU”. Como sublinhava esse documento, "só um governo democraticamente representativo pode ser um intérprete da vontade de colaboração de um Povo livre numa assembleia de Povos livres".
Por isso mesmo, o governo de Salazar, enfurecido, mandou instaurar processos disciplinares contra aqueles dois docentes universitários e cidadãos intervenientes na coisa pública.
Sobre um exemplar impresso do comunicado do MUD, o subsecretário de Estado da Educação lavrou, com data de 09-09-1946, o seguinte despacho: "A natureza clandestina deste documento e as afirmações nele produzidas impõem que se proceda disciplinarmente".
No dia seguinte, um tal João de Almeida (que terá, aliás, colaborado na Seara Nova em 1934 sobre "questões de ensino - métodos e processos"), nomeado instrutor dos processos disciplinares contra Bento de Jesus Caraça e Mário de Azevedo Gomes afirmava, na respetiva nota de culpa, que cada um dos acusados “definiu nesse manifesto uma atitude que contraria a posição do Estado em matéria de política internacional" e "difamou gravemente os membros do Governo" - tudo considerado infrações disciplinares previstas no Estatuto Disciplinar dos Funcionários Civis do Estado.
Com data de 7 de outubro, sendo relator Carlos Proença de Figueiredo (diretor-geral do Ensino Técnico), "os do Conselho Permanente da Acção Educativa são de parecer que aos arguidos Doutor Mário de Azevedo Gomes e Doutor Bento de Jesus Caraça, seja aplicada a pena de demissão".
E, como era óbvio desde o princípio, o ministro da Educação Nacional, José Caeiro da Mata, profere, no mesmo dia, o seguinte despacho: "Aplico a pena proposta".
Em 3 de outubro de 1946, as Comissões Executivas das Comissões Distritais do MUD expressam-lhes “a sua consciente e absoluta solidariedade” (ver documento anexo).
As penas de demissão são publicadas em Diário do Governo no dia 10 de outubro e, no dia 17 do mesmo mês, o ministro da Educação Nacional manda publicar uma nota oficiosa (ver anexo) tentando “esclarecer a opinião pública”.
Os visados editam entretanto “Duas Defesas”(ver capa em anexo) – onde está cabalmente desmontada toda a manobra governamental, tendo ambos recorrido da penalidade que lhes foi aplicada.
Como se sabe, este ataque era apenas o princípio da purga que o governo fascista aplicaria, pouco mais de meio ano depois, a 21 investigadores e docentes das universidades portuguesas.
Mário de Azevedo Gomes será readmitido em 1951, jubilando-se em 1955, enquanto Bento de Jesus Caraça virá a falecer em 25 de junho de 1948.
Apesar da repressão, Mário de Azevedo Gomes não desistiu e, em 1948, já depois da extinção do MUD, presidiu à Comissão Central da candidatura à Presidência da República do General Norton de Matos. Depois dessas eleições, subscreveu o manifesto da criação da União Democrática Portuguesa e continuou a participar ativamente em diversas atividades da Oposição, através de manifestos, proclamações, abaixo-assinados; intervindo nas campanhas políticas e na Comissão Promotora do Voto; participando na fundação e direcção da Causa Republicana, da Frente Nacional de Libertação Democrática e do Directório Democrata-Social. Deu também apoio à reorganização do Partido Republicano Português.
Em 10 de maio de 1958 foi um dos participantes na conferência de imprensa de apresentação da candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República, no café Chave d'Ouro, em Lisboa
Em Novembro de 1958, aos 73 anos de idade, foi novamente detido juntamente com Jaime Cortesão, Francisco Vieira de Almeida e António Sérgio, acusados de promoverem a vinda a Portugal do deputado trabalhista inglês Aneurin Bevan, para proferir uma conferência. Foi libertado sob caução e encabeçou os protestos contra as perseguições sofridas por Humberto Delgado que culminaram no pedido de asilo deste na embaixada brasileira.
Em 1961, foi o primeiro subscritor do Programa para a Democratização da República, que seria entregue, a 28 de janeiro, na Presidência da República. Face aos acontecimentos de 4 de fevereiro em Angola (assalto de nacionalistas às prisões de Luanda), só seria divulgado em maio, iniciando de imediato a PIDE a prisão de muitos dos seus subscritores.
Durante a década de 50 e início dos anos 60, e no âmbito dos seus interesses profissionais, orientou e elaborou vários estudos dedicados ao Parque da Pena (solos, clima e aspectos dendrológicos-florestal). Em 1960, publicou a obra que veio eternizar a sua paixão pelo Parque da Pena (Monografia do Parque da Pena), na qual descreve detalhadamente o património natural e edificado do Parque, bem como de espaços adjacentes, como a Tapada do Mouco, o Castelo dos Mouros, a Tapada do Inhaca e outros.
Faleceu em Lisboa a 12 de Dezembro de 1965, na sequência de um acidente de viação, ocorrido perto de Aljustrel em 27 de novembro, constituindo o seu funeral uma impressionante manifestação cívica.
Da multifacetada obra do Professor Azevedo Gomes ressaltam dois grandes contributos: o estudo e proteção da floresta portuguesa, e o papel dos intelectuais, em especial dos académicos, na defesa da Liberdade e da Democracia.


Na sua vasta obra publicada destacam-se:
Aspectos da questão do açúcar. O abastecimento de Portugal pela produção nacional e pela importação. – Lisboa, 1907
Utilidade das árvores – (Os livros do povo – 11ª secção – Vida do Campo). Lisboa, 1916
Situação económica da agricultura portuguesa. Memória – Lisboa, 1920.
La Culture des céréales ao point de vue économique et social – Portugal. (XIIIeme Congrès International d’Agriculture – Rome, 1927), em colaboração com Nuno de Gusmão)
Contribuição para o estudo da arborização florestal de Cabo Verde, Lisboa, 1931
Função social do agrónomo na actualidade. O caso português, Lisboa, 1932
Comércio dos resinosos em Portugal – Cadernos da «Seara Nova», Lisboa, 1934
Notícia sobre a Tapada da Ajuda. Lisboa, 1935
Estudos Dendrológicos. I – O Género «Pseudotsuga» no Parque da Pena (Sintra), em colaboração com Fernando Raposo), Lisboa, 1939
O Ciclone e a produção das matas portuguesas, Lisboa, 1941
Produção, consumo e balança comercial para os produtos agrícolas. Condições de exportação, Lisboa, 1941
Estudos dendrológicos. II – A formação do lenho em árvores seculares, em colaboração com Fernando Raposo. Lisboa, 1942.
Estudos dendrológicos. III – A formação do lenho no Eucalyptus Globulus Labill, na região do Ribatejo, em colaboração com Fernando Raposo, Lisboa, 1942
O Engenheiro Silvicultor em serviço nas matas considerado como obreiro da investigação, Lisboa, 1943
A Obra do Instituto Superior de Agronomia nos últimos 25 anos, Lisboa, 1943
Estudos dendrológicos. IV – Sobre um possível híbrido natural a partir das espécies Cupressus Macrocarpa Hartw e Cupressus Lusitanica Mil, em colaboração com Firmino Costa. Lisboa, 1943
Evolução da Agricultura Portuguesa entre as duas guerras mundiais, em colaboração com Henrique de Barros e E. de Castro Caldas, Lisboa, 1945
Duas defesas. (Em colaboração com Bento de Jesus Caraça). Edição dos Autores, Lisboa, 1946
 

REFERÊNCIAS:.

- Ignacio García Pereda; Mário de Azevedo Gomes (1885-1965). Mestre da Silvicultura Portuguesa. Sintra: Parques de Sintra
- «Ficha histórica: Lusitania: revista de estudos portugueses (1924-1927)». Hemeroteca Municipal de Lisboa
- https://www.isa.ulisboa.pt/files/id/azevedo gomes/Mario_de_Azevedo_Gomes.pdf
- Manuel Loff e Ana Sofia Ferreira. Mário de Azevedo Gomes, Cronologia-Centenário da República
- Biografia em co-autoria de A. S. Curvelo-Garcia e Helena Pato em "Anti-Fascistas da Resistência"